Clareira aberta

Um blog de reminiscências e banalidades - às vezes sérias.
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Auto-escola

Tentou fazer um caminho diferente. Cruzou a rua e tomou a avenida paralela, sem saber muito bem onde chegar. Deu de cara com a placa: “Aulas de direção aqui. Inscreva-se já!”. Pensou: - “Acho que vou me matricular. Preciso mesmo saber aonde ir…”

Tabelado

O desagrado de um dígito-número

No aumento de um preço qualquer:

- Ao matadouro!

Café

Não sabia bem o que querer. Tudo o que sentia àquela altura da noite era o chacoalhar de sentimentos convulsos em seu peito compacto. Meia-luz num terraço pequeno, em “L”, à beira-mar. A canção das ondas misturava-se às canções do seu disco preferido do Jards Macalé, e o cheiro da maresia bailava com o perfume de seu café ainda quente.

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“Gosto de café, é disto que a vida precisa”, divagava sentada em uma almofada disposta em um dos cantos do terraço, na companhia de uma mesinha simpática de bambu envernizado. Entre um gole e outro, perdia-se nas trilhas daquele sereno céu sem lua.

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“E também cor de café. Sim, cor de café torrado”, pensava pouco antes de se levantar e seguir na direção da cozinha. Pôs sobre a mesa um envelope de café em pó, e sobre o fogão uma panela de aço inox cheia até a metade com água do filtro. Acendeu um fósforo, olhou alguns segundos para a chama, e finalmente acendeu o fogo em uma das “bocas”.

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Com um olhar inquieto seguiu até a sala, ligou o repeat na faixa 5 do disco e voltou ao seu posto no terraço. “E esse jeitinho de quero mais”, sussurrou levantando um tanto a sobrancelha direita, antes de dar o último gole no copo que restava sobre a mesinha.

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Fechou os olhos e decidiu sentir a música - do Jards e do mar. Seu coração funcionava em pulsos ofegantes, e poderia jurar que o ouvia resmungar qualquer bobagem. “Café. Não mais que isso é a vida. E deveríamos, nós todos, viver mais disto - desse cheiro atraente que contemos, desse calor suave que negamos, desse gosto forte que fingimos esquecer…”

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Neste momento despertou de seu quase-sonho com o estalo da panela já seca, de tanto tempo ao fogo. Correu para a cozinha, desligou o fogão, encheu novamente a panela e, entre risos frouxos, concluiu “e mais desse risco de evaporar antes mesmo de coar”.

185

O cansaço ninava as minhas idéias alvoroçadas. Passava das 20h, e já eram quinze de idas e vindas, após as três horas de sono. Não havia muito mais que enfado ecoando em minha mente, e quase tudo o que conseguia sentir era uma incômoda enxaqueca e o peso das pálpebras.

(…)

Meia dúzia de palavras trocadas à companhia grata, enquanto nos revezávamos entre os diálogos, os pontos de ônibus e os livros. Até que aportasse ao Cais aquele 185.

(…)

Uma trança, dois olhos profundos e um rosto doce, de feições delicadas, repousando sobre o punho. Tentei manter os olhos nas páginas, mas a única leitura que ora podia fazer era a de sua expressão - com certo tom de gravidade.

(…)

Os fios de tom escuro que lhe fugiam à trama dançavam tímidos ao vento, enquadrando-se nos sonhos daquela janela, e pareciam querer motivar alguma divagação que porventura lhe passava pela cabeça enquanto perdia o olhar sobre o punho semi-cerrado.

(…)

Havia qualquer coisa de nostálgico naquelas maças delineadas pela luz amarelo-envelhecida dos postes, dispostos como gigantes solitários nas avenidas escuras do tráfego cosmopolita.

(…)

A enxaqueca que até pouco incomodava dera lugar à arritmia das palavras não ditas, e a sensação de fruir esses instantes figurava em meu peito tal qual aquele sinal perdido à colcha de sua pele, abraçado à altura do queixo.

(…)

Calar-se: era tudo o que meus sentidos sabiam, e o suficiente para degustar o encanto que seria o cume do meu dia. Sem nomes, tudo o que tinha a lhe oferecer em troca dos minutos de inspiração era o meu silêncio contemplativo e a dúvida crucial que me cercava: moça, que sabes tu do que se esconde neste olhar?

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