Clareira aberta

Um blog de reminiscências e banalidades - às vezes sérias.
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Exemplo

Não acredito em gente de caráter exemplar; acredito em pessoas de atitudes exemplares. Caráter é algo demasiado íntimo, e crê-lo como exemplo seria creditar ao homem o status de essencialmente bom. E apesar de crer na quase infinda possibilidade do homem de estar em oposição àquilo que é, não seria ingênuo ao ponto de ignorar a força da sua própria natureza.

R$12,50

Há três dias não almoça. Apenas bebe alguma coisa, um suco de laranja ou uma cerveja, na tentativa de digerir o fato. Ainda não consegue acreditar, e entender não é sua intenção. 

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Na sua cabeça tudo era tão claro; todos os gestos, todas as frases, todos os planos… e ainda ouve claramente as últimas palavras dela em sua última conversa - as mesmas últimas palavras dos últimos nove meses - “R$12,50, Eric. Obrigada!”.

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Nove meses. Já era tempo de seu sentimento vir à luz, e estava decidido: seria naquele dia. “Seria…” - é o que agora ecoa de canto a canto de sua alma pequena, suficiente apenas para as banalidades de seu cotidiano.

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Laila era linda, simpática, inteligente, e o seu sorriso cativara Eric desde a primeira vez em que fora almoçar no Big Lanches, em uma segunda-feira de outubro, assim que mudou de trabalho.

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Pouco mais de três semanas e Laila já respondia ao “boa tarde!” de Eric anexando a indagação: “o de sempre?”. O rosto pálido de Eric corava, e ele o meneava sorrindo, respondendo que sim.

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Com o tempo Eric pensou em mudar o cardápio de suas tardes, no intervalo entre os turnos diante de um computador, mas teve receio de desapontar aqueles olhos profundos de noite sem lua, sempre à espera de seu sorriso para preparem o corriqueiro chop suey.

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Agora não é mais tempo. Nem de mudar seu pedido, nem de oferecer a Laila o menu do sentimento sublime que há tanto alimentava por ela - e guardava para si.

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Foi triste ter que ouvir, três dias atrás, que Laila já não trabalhava mais ali. Estava morta, vítima de um câncer que preferiu não tratar. Mas a vida é assim; tudo logo passa, e nem sempre o menu nos agrada. Não importa. De um jeito ou de outro, a conta sempre vem.

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O que realmente incomoda Eric agora é a falta de apetite. E a necessidade de buscar algo novo para lhe suprir a fome. (Esquece-se, contudo, de que talvez possa agora pedir algo que não chop suey, sem o peso do descontentamento do que nunca existiu…)

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